quinta-feira, 23 de abril de 2009

poema de 22/10/1999





(Foto de R. Samuel: Opera house, em Sydney, Australia)




há entre a taça e a xícara
vaga da tua para-
da. calada toalha
vidro ladrilho
litro e do bule quente
nu sobre o sombrio limbo
perfume aéreo de café
discurso vozes horizonte cartas pernas abertas
mas objetos plenos
em gozo integrados
um nó
um único nó
da não separação da não
divisão do pão
núcleo liso imóvel novo
interseção de pontos
o vir vivido
não condicionado
não nascido

(22/10/1999)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

LYRA









a lua em peixe
diz pra multidão
me deixe

quinta-feira, 9 de abril de 2009

TERRA




TERRA



(Desenho de R. Samuel)



terra de meus mais belos poemas
vão-se as cenas amarelas
também passou o amor com seu fardo
oh amados, da aliança esquecidos
no centro daquelas feras terras
vêm com seu automático gatilho
oh jovens orientais de olhos sagazes
oh bebedores de cerveja e seda
eu quero ter teu belo bolero thai
sob tua pele de chrystal e neve
o teu trunfo de veludo as tuas músicas
andando e esquecido de pelúcia
nas veias velhas da terra se irradiam
e há no teu colo as folhas macias
para onde eu quero voltar

terça-feira, 7 de abril de 2009

que me aparto de vós, oh óleos
















que me aparto de vós, oh óleos
do Rio Negro. Das axilas
de coca-cola, de mel. Produto impuro
banho de esperma que ferve
pelas paquidérmicas chatas.
vos deixo, oh mãe de orquídeas terra
régia fera guerra estéril e amorosa
e no longo corredor me enrosco
meu aeroplano tece
sobre vossas plastificadas canoas de ferro
goma arábica ungüento espesso
caboclo jovem mãe planície
negra magra seda
de vós finalmente me aparto
oh águas lixiviadas, menstruais
lembranças de ventres de tarântulas
de cristais
de vós me aparto para sempre!
esmorecido de vós, sucumbido
por vossa fênix, por vosso lenho
vos esqueço, oh pélvica morada
de mortos deuses, de profundos silos
e neste ar meu aeroplano tece
e é expelido pelas tuas pernas.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

um poema azul



um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo

por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
que azul aceita

por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?

esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?

leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.

meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.

mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.

cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz poema
e a tua pena
vai-te envenenar.



(maio de 2.000)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

que quando entrei do patamar no espaço















que quando entrei do patamar no espaço
no comando gritavam pulsações de alarme
e o repuxo das terras punham plácidas tábuas
esboroado o farol a ímpeto último.
e coloridas voavam no patamar da estupa
bandeiras de rezas estandartes de graças
e era quando ali recebíamos forças
do aro de metal tão plano quanto aço.
mas do mormaço apareciam taças
bye-rung kha-shor amorosa puro néctar túmido
no fomento do som de trompas que sobre o azul colore
levadas a pulso poderosas e em bando.
ó grande tarde de Padmasambhava
ó grande área aquela de palácio!
rufam tambores encastelados deuses
refregas rumores talássicas ameaças
de Mahakhalas de khatvangas de espadas!

quem me dera estar de volta em poema
e lá não me perder no azul do céu da cena

quarta-feira, 1 de abril de 2009

foi numa noite de agosto














foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal