sábado, 7 de abril de 2018

um poema azul

um poema azul



um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo

por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
que azul aceita

por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?

esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?

leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.

meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.

mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.

cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz poema
e a tua pena
vai-te envenenar.


ROGEL SAMUEL
(maio de 2.000)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

no bosque

no bosque


no bosque
neste regato do bosque
busco você entre árvores
quero
quero teu banho
tua luz

não te encontro
estás com as imagens misturada
lembranças nadas
nadas

debaixo da ponte
onde
te conheci
fonte

eras tão jovem
o teu amor
pulsante
mas éramos
já não somos
não estamos

neste regato do bosque
entre árvores
te procuro


muro

rogel samuel

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

OLÍMPÍADA




Agora tu, Calíope, me ensina
O que dizer dessa Olimpíada
Vivida no chão daquela praia
Copacabana dama do mar...

Festa de cores e falares
Ao som do azul do mar profundo...
Nenhuma briga, nenhum ataque
Que não fosse riso, gol e caipirinha
Bela celebração, bela conquista
Do lábaro estrelado brasileiro
ROGEL SAMUEL

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O VERÃO CARIOCA

O VERÃO CARIOCA


O sol do verão

 

Rogel Samuel

 

O sol, o verão. O brilho intenso, os ares claros, as nuvens raras. No Rio é tempo de amar.

         Lembro-me de crônica de Rubem Braga, sobre o começo do verão.

         Um dia - e não sei se já contei - estávamos na biblioteca da Faculdade que na época era a FNFi, ou Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ficava onde hoje está a Academia de Letras.

         Era manhã cedo.

         Entra um bêbado.

Um homem em desalinho, mas bem vestido.

Grita:

         - Tem meus livros aí?

         Ivete, a diretora da biblioteca, manda chamar os funcionários para que ponham para fora o intruso.

         Mas não deixamos e ele se reuniu conosco.

         Era Rubem Braga.

         Tinha acabado de ser embaixador, ou coisa assim.

         Não disse quem era, mas nos contou sua vida (com detalhes indiscretos que não devo contar).

Escreveu um poema para minha amiga Maria Alice (que faleceu este ano).

         Falou de literatura, poesia, vida. De Copacabana.

         Narrou suas mágoas.

Braga é um dos maiores escritores do país.

Seu texto, comparável a Clarice, a Machado, a Francisco Manuel de Melo.

Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é autor da CARTA DE GUIA DOS CASADOS, escrita na prisão, que fala 'do amor e da obediência'.

Diz Manuel de Melo: 'Não sou já mancebo. Criei-me em cortes; andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi."

O texto seco, sem adjetivos, direto e elegante. Como eu gosto.

' Estes serão os textos, estes os livros que citarei a V. Mercê, neste papel; onde, juntas algumas histórias que me forem lembrando, pode muito bem ser não sejam agora menos úteis que essa máquina de gregos e romanos, de que os que chamamos doutos, para cada coisa nos fazem prato, que às vezes nos enfastia'.

Mas meu assunto é o sol.

O sol do verão me alucina.

         E de Braga a D. Francisco Manuel de Melo passei.

Precisamos aprender a escrita com D. Francisco. E a bem casar.

Minha amiga X me critica. Diz que a minha linguagem é telegráfica.

Sim. É. Corto mais do que introduzo palavras.

Meu ideal é escrever uma crônica de uma única linha.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não posso reter os teus traços

Não posso reter os teus traços








Foto R. Samuel











Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se esquece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando te vir já será garço
O repique da tua cena
e o afastado abraço...
(oriunda onda a que cerca de aço
me levarão tuas algemas?)

POEMA DE TUFIC


Restinga's Bar
Sou tão frágil, meu bem, que um som, de leve
pode ser-me fatal como o teu beijo:
qualquer música brega, qualquer frase 
pode ser-me fatal. E, assim, não deve
a brisa andar tão próxima à tormenta,
como não deve o ritmo da valsa
transformar-se em punhais; a vida é breve
e aquilo que é demais logo arrebenta.
Sou tão frágil, meu bem, que nada pode
separar-me de ti. Teu nome é um sonho
que navega em meu sonho. Tenho pena
de tudo, algo me aflige e me sacode.
Desliga esse Gardel, bota um canário
em vez do som, da voz que me condena.
JORGE TUFIC

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

MORRE JORGE TUFIC

VORAGEM, POEMA DE JORGE TUFIC
Rostos que nunca vi, jacintos murchos
cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda vida. Cata-ventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
todas, em mim, são rosas e crianças