terça-feira, 5 de março de 2019

CARNAVAL 2019



Os dias fantasias
 carnaval

Uma tristeza muda
nos empurra
abre alas


Velho vento
dá um recado
dá o mote

Sabe a finados

Mito da alegria 

Fria

Punhos fechados

Requebrados
fracassados

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

FELIZ DE QUEM COM CÂNTICOS SE ESCONDE

FELIZ DE QUEM COM CÂNTICOS SE ESCONDE

FELIZ DE QUEM COM CÂNTICOS SE ESCONDE

ROGEL SAMUEL

Eu já escrevi várias vezes sobre o mesmo tema. Nos dias escuros, chuvosos, de hoje, me pego a pensar na Primavera, que virá. Ainda sou marxista, e assim, otimista. O sol ainda vai luzir no horizonte. Talvez um sol que não se apague, como disse Dugpa Rinpochê. Talvez não para mim, que velho estou para esperá-lo. Mas haverá sempre o sol sobre a chuva desses campos de um soneto de Jorge de Lima, que releio sempre, que não me canso de ler, quando deprimido, triste:

“Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios”.
(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu - Canto I – XXVI)
Já pensei assim. Se tudo estiver bem, lembre-se de que tempos piores podem advir: “Qualquer que seja a chuva desses campos / devemos esperar pelos estios”. E quando a época ruim chegar, contentar-nos com os nossos sonhos.
O poeta, pessimista, espera danos futuros. Em não conseguir o sonhado amor, que é imortal:
“Porém se não surgir o que sonhamos / e os ninhos imortais forem vazios, / há de haver pelo menos por ali / os pássaros que nós idealizamos”. “Feliz de quem com cânticos se esconde”.
Por que estar triste hoje? Porque «Somos membros uns dos outros», disse São Paulo aos cristãos de Efeso, citado por Laín Entralgo, num artigo. Entralgo era pensador da direita espanhola, discípulo de Ortega, e sempre exerceu sobre mim sobrenatural fascínio. Define Entralgo a capacidade do homem de considerar-se pessoa por dois conceitos: o próprio, e o alheio. Na esfera do próprio, estabelece duas diferentes esferas: o 'meu' (que define a própria estrutura do eu), e o 'em mim' (que posteriormente ele estuda, na patologia).
Como a pessoa é capaz de relacionar-se com outra? Como considerar o outro como outro eu? Como analisar o encontro, como estabelecer relações de amizade? Para Entralgo, a realidade consiste em ser 'de si' e em 'dar de si''. A realidade se faz presente e cognoscível na impressão de realidade que a coisa oferece ao sujeito que a percebe.
O principal livro de Entralgo, raríssimo entre nós, se chama 'Teoria e realidade do outro', que só consegui ler na Biblioteca Nacional, mas que hoje tenho. Nesse livro, ele percorre a filosofia ocidental em busca da teoria da consciência do outro, do outro como outro eu, onde a consciência de si é a consciência do outro. Como em Hegel, quando o eu suprassumia a si no outro a que se opunha numa negação: eu não sou o outro.
        Alguns poetas tiveram, ou revelam, dificuldade de relacionar-se com o outro. “O inferno são os outros”, já se disse. O poeta é um sofredor inútil. Entre 'os serões e os fiéis enganos' há uma ponte para a solidão sempre presente, sempre fiel, porque esse tipo de poesia tem uma vocação de 'amar o perdido', de buscar o passado, de 'Amar os sonhos que restarem frios'. Marca o reconhecimento de si no outro inexistente, distante e impossível.

As asas depenadas não voam, o coração já não se usa (Cocteau), não ama, as cenas ao redor são terríveis, as dores não mais se expressam, estão secretas, os ninhos vazios, os enganos fiéis, mas a poesia de “Invenção de Orfeu” mantém a sua beleza imortal.

sábado, 17 de novembro de 2018

OVIDIO: METAMORFOSES

Onde quer que houvesse o piso da terra
ali também havia o mar, havia o ar.
A terra instável, a onda inábil, o ar
privado daquela luminosidade.
Nada ali permanecia como era,
em sua forma própria, e uma coisa
se chocava às outras porque
num só corpo o frio lutava contra
o quente, o úmido com o seco,
o mole com o duro, o pesado
contra o sem peso algum.


OVIDIO: METAMORFOSES

TRAD. ROGEL SAMUEL

sexta-feira, 18 de maio de 2018

havia uma igreja no alto

havia uma igreja no alto


havia uma igreja no alto
de lá se descortinava
o grande mar o asfalto
por onde a estrada passava
ficava o mundo em pedaços
a praça os recomeços
as cartas de teu regresso
ficavam nas pedras os passos
a esquiva glória de amar
os pedaços de si mesmo
o meio a linha os traços
o espetáculo no espaço
a glória curta no ar
havia uma igreja no alto
e o plano do grande mar

sábado, 7 de abril de 2018

um poema azul

um poema azul



um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo

por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
que azul aceita

por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?

esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?

leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.

meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.

mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.

cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz poema
e a tua pena
vai-te envenenar.


ROGEL SAMUEL
(maio de 2.000)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

no bosque

no bosque


no bosque
neste regato do bosque
busco você entre árvores
quero
quero teu banho
tua luz

não te encontro
estás com as imagens misturada
lembranças nadas
nadas

debaixo da ponte
onde
te conheci
fonte

eras tão jovem
o teu amor
pulsante
mas éramos
já não somos
não estamos

neste regato do bosque
entre árvores
te procuro


muro

rogel samuel

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

OLÍMPÍADA




Agora tu, Calíope, me ensina
O que dizer dessa Olimpíada
Vivida no chão daquela praia
Copacabana dama do mar...

Festa de cores e falares
Ao som do azul do mar profundo...
Nenhuma briga, nenhum ataque
Que não fosse riso, gol e caipirinha
Bela celebração, bela conquista
Do lábaro estrelado brasileiro
ROGEL SAMUEL