sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não posso reter os teus traços

Não posso reter os teus traços








Foto R. Samuel











Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se esquece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando te vir já será garço
O repique da tua cena
e o afastado abraço...
(oriunda onda a que cerca de aço
me levarão tuas algemas?)

POEMA DE TUFIC


Restinga's Bar
Sou tão frágil, meu bem, que um som, de leve
pode ser-me fatal como o teu beijo:
qualquer música brega, qualquer frase 
pode ser-me fatal. E, assim, não deve
a brisa andar tão próxima à tormenta,
como não deve o ritmo da valsa
transformar-se em punhais; a vida é breve
e aquilo que é demais logo arrebenta.
Sou tão frágil, meu bem, que nada pode
separar-me de ti. Teu nome é um sonho
que navega em meu sonho. Tenho pena
de tudo, algo me aflige e me sacode.
Desliga esse Gardel, bota um canário
em vez do som, da voz que me condena.
JORGE TUFIC

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

MORRE JORGE TUFIC

VORAGEM, POEMA DE JORGE TUFIC
Rostos que nunca vi, jacintos murchos
cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda vida. Cata-ventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
todas, em mim, são rosas e crianças

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Rogel Samuel - CARNAVAL



Rogel Samuel - CARNAVAL



Neste carnaval um livro me faz crer na morte. Um livro de latim. Sim, porque é carnaval. A muito antiga recordação chega por sujos corredores. O desfile. Longe.  Seu rebolado, ouço. De seus batuques o bulir. De seus reco-recos a tamborinada batucada. O desfile segue na direção da morte. Da Matriz ou do Congresso? No princípio ou no fim? Nítido já não está seu quadro mágico. No escuro da esquina some. Roda no tempo, mergulho, abissal grito de dor. Corta a espada o sonho antigo. Personagens fantasias saindo pela porta que sempre esteve ali, mas disfarçada. Personagens vestidos de mortos. A uma quadra dali, estala o balaco-baco do quadro carnavalesco. É o onde estive. Onde sempre estarei. Outra face. Olímpico, Rio Negro. Fantasias esgarçadas, esmaecidas. Pulsa sangue novo dos viventes mortos. Transparentes véus se abrem de onde saem. Fadas, prestidigitadores, coreógrafos, mandarins, camélias. Um raio de serpentina luminosa atravessa o ar, desenrolar de puro ouro. Dentro do salão tudo brilha, cristal. O salão espelhado do Clube faz tudo girar. É redondo. Das lança-perfumes o perfume no ar. Camélias de minha vida, reapareçam. No chão súbitas estrelas lancinantes caem e abrem cortinados de papel crepon. Quem nunca pensei rever, Sílvio por exemplo me acena, cantando, rebolando, gestualizando. Sapateado Maloca dos Barés. Todos ali afastam-se nas fantasias de si mesmo. O rei Momo e corte avança na alegoria. Não o reconheço. Ele prospera. Vem do luar um halo de mágica fala que atravessa o vácuo. A festa goteja, no céu se fez um súbito silêncio. Uma brutal surdez cristaliza mundos estelares. Onde, eles? Meu bloco, meu loco? Não ouso pronunciar seus nomes. Para onde foram foliões? O desfile entrando no vale das sombras. Alegria se desconstruindo distante. No afastado. Em vão os chamo. Não me deixem, brinquedos, estragos. Não atravessem este rio. Voltem para os barcos. A vida desfila carnavalesca. Alegres, cantantes, fantasiados, mascarados, palhaços. Mergulham na morte. O vento. 

  
  Quando estive em Manaus comprei as "Noções de latim", de Agenor Ferreira Lima. Toda a edição estava lá, não vendida, na livraria velha da Henriques Martins. O rapaz não me queria vender. "Não tem preço", me disse. Insisti. Avaliei um preço. Comprei. Veio com o "Vocabulário", um panfleto anexo aos dois volumes para as quatro "Séries ginasiais". 1959. Estudei por ali. Agenor era um excelente professor severo. Inspirava medo. Do seu livro extraio esta: "De vulpe et uva", "A raposa e as uvas": 

  Fame coacta, Vulpis alta in vinea 
  Uvam adpetebat, summis saliens viribus; 
  Quam tangere ut  non potuit, discedens ait: 
  "Nondum matura est, nolo acerbam sumere". 
  Qui, facere quae non possunt, verbis elevant, 
  Adscribere hoc debebunt exemplum sibi.

 Que deve ser de Caio Julio Fedro. Não sei. Ele não diz. Podia traduzir livremente assim: 

"Pela fome coagida, a raposa  
agarrava um cacho de uvas  
da altura do pulo de um homem.  
Não as podendo colher, afastou-se dizendo:  
"Não estão maduras, não gosto do sumo ácido."  
Quem, fazendo o que não pode, ergue a voz, 
acrescentando o mesmo que seu exemplo". 

O professor Agenor me reprovaria esta prova escrita de menino de quarta séria do atual primeiro grau do Colégio Brasileiro. Não reclamem minha tradução. É carnaval.  
  
 Melhor é HORÁCIO, que na Ode III assim se refere ao  
"AO NAVIO DE VERGÍLIO" (Trad. Elpino Duriense, Lisboa, 1807):

Ó nau, que és de Vergílio devedora, 
               Que a ti se confiou, rogo-te, o ponhas, 
               Salvo nas terras áticas, e guardes 
               metade de minha alma.

O poema integral está no livro.
  
 Vale a propaganda. Mas neste carnaval pensei na morte. Algumas linhas abaixo já a esqueci. O Prof. Agenor há muito faleceu. Ele, Pedro Silvestre, D. Maria Luiza Saboia, Freitas Pinto, a Vivisinha, o Barrela. Meus Deus, faleceram todos! Como vêem, tudo passa. Mesmo a morte. Que passa. Também. A morte também morre. Mas estes meus professores estão vivos na minha memória ainda vivos.

noites de carnaval, noites



noites de carnaval, noites
de ruidoso amor
o baticum dos tambores
africanos
os humores eróticos
os tremores requebrados
passistas apressados
nas noites de antigos
carnavais
perfume de lança-perfumes
inebriantes 
fontes
lanças eretas
requebros noturnos
ruas apertadas
portas abertas
luar

ROGEL SAMUEL

CARNAVAL, CARNAVAIS


CARNAVAL, CARNAVAIS

ROGEL SAMUEL

Velho imprestável hoje, que mal consegue andar e se levanta da cadeira com dificuldade, mas já fui um bom folião.
Sempre gostei do Carnaval carioca.
Quando jovem, o pai de minha amiga Maria Alice, meu amigo Capucci, com quem jogava baralho à noite, diretor do Botafogo, com ele íamos às festas no Mourisco, que rolavam até o dia raiar, quando a gente se jogava na piscina do clube, bêbados, alegres, depois de dançar em cima das mesas, gritando:
“Mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar...
Pega a chupeta, pega chupeta
Pro bebê não chorar.”
O que era uma pornografia...
Já ouviu falar em “Banho de mar à fantasia”?
Pois acontecia, pois havia na praia do Flamengo, em frente ao Aterro, quando o desfile das Escolas de samba era na Avenida Rio Branco e terminava naquela praia, onde se sambava ia até o sol nascer.
Lá acabava havendo de tudo, na maior festa, orgia absoluta. Sambistas tiravam completamente a roupa, a fantasia, e se lançavam nus ao mar, sem pudor, sem perigo, sem polícia, sem medo, sexo livre, álcool e samba, alegria geral.  
Sou dos extremos, contraditório, pois alguns carnavais passei em retiro de meditação budista, em silêncio completo.
Outras vezes acampado, em desertas praias, paradisíacas, com amigos, época de ouro dos acampamentos em praias isoladas, em Búzios, Ilha Grande, Prainha, quando os milionários apareciam em Mercedes ou iates de luxo, famosos, ricos, libertos.
O mundo do Carnaval onírico, fantasia da realidade, representada em filmes como “Orfeu” e “Lira do delírio”.
Festa simbólica, suprema, imprevisível, de rua, de samba no pé, mas também desfiles luxo no Municipal, no Copacabana Pálace, e  em festas gays na Praça Tiradentes, tão internacionalmente famosas que dizem até o Maestro Leonard Bernstein veio certa vez incógnito para numa delas sambar.
O melhor acontecia no espaço livre do público, no espaço público, no passar do baticum estrilado das Escolas de Samba, quando chegamos a levar Rose Marie Muraro ao sambódromo, lembrou-me o amigo Marcelo, neto de Capucci.
E que escrevi poemas, como:
“Nesse carnaval entôo em surdina
breve texto esta canção
desenvolvendo a paisagem cristalina
tinta azul, papel na mão
espuma do ar mantida em vestes finas
toldo de amor que aparelha e envolve
e te molesta a alegria matutina
passando o pente o tema a minha senha
e ergues a tricotar a estrela fescenina
brincando de tua passarela
e sonhada é férrea a tua serpentina
borboleta de papel de seda
que me despeço de tua face de menina
teu aço besuntado de abelha”.

Poema de carnaval muito popular, que agradou, que anda na Net, que circula em sites e blogs já sem meu nome, quando no carnaval que se aproxima.
Sim, gosto de carnaval, ou melhor, gostava mais quando jovem.
Hoje velho mas não triste, já não subo nas mesas a cantar, a sambar, a rir e a gritar na alegria das serpentinhas e nos brilhos das alegorias.
Nem mais bebo do cálice das belezas cariocas com aquela exuberância da década de 60.
Mas a culpa não é minha.
O mundo mudou, o carnaval mudou, não só eu.
O carnaval dos inocentes acabou, tornou-se agreste, comercial.
Mas ainda belo, rico, colorido, enfeitado e quente.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A MORTE DO MUNDO

A MORTE DO MUNDO - Rogel Samuel

Nasceu em Montigny- Le-Roy, França, em 26 de fevereiro de 1842. Faleceu em Juvissy, também na França, no 4 de junho de 1925.

Cammile Flammarion escritor de talento, astrônomo, pertenceu ao Observatório de Paris, de onde se retirou em 1862, ao publicar "A pluralidade dos mundos habitados”, texto de  argumentação dentro dos conhecimentos da época. Premiado pela Academia Francesa com o prêmio Montyon, em 1880, o seu livro "Astronomia Popular".

Seu prestígio como escritor junto à crítica universitária prejudicado porque era espírita, crítica sempre muito preconceituosa a vários respeitos.

Ele esteve, desde o início da doutrina espírita, perto de Allan Kardec, de quem foi amigo íntimo até a morte. Discursou junto ao túmulo de Kardec, no Cemitério de Montmartre, falando do «pensamento científico e filosófico» do espiritismo.

Seu tema principal a tese da vida em outros planetas além do nosso.

Escreveu muito: "Os Mundos Imaginários e os Mundos Reais", "As Maravilhas Celestes", "Deus na Natureza", "Contemplações Científicas", "Estudos e Leitura sobre Astronomia", "Atmosfera", "Astronomia Popular", "Descrição Geral do Céu", "O Mundo antes da Criação do Homem", "Os Cometas", "As Casas Mal- Assombradas", "Narrações do Infinito", "Sonhos Estelares", "Urânia", "Estela", "O Desconhecido", "A Morte e seus Mistérios", "Problemas Psíquicos" etc.

Um livro de Flammarion sempre me interessou: "O Fim do Mundo" (Rio de Janeiro, Federação espírita brasileira, 2001, http://www.febrasil.org.br/). No Brasil vendeu perto de 48 mil exemplares.

Li quando criança, na casa de meu pai.

Li mal, em francês. Mas li com sofreguidão.

Anos depois reli numa edição comprada num sebo.

Agora reli com o mesmo entusiasmo, depois de ver um desses filmes catastrofistas como «Deep impact» (Impacto profundo) dirigido por Mimi Leder, com Robert Duvall e Vanessa Redgrave de 1998. E «Armageddon», também de 1998, dirigido por Michael Bay.

«Deep impact» é um filme nitidamente inspirado no livro de Cammile Flammarion: um cometa se choca com a Terra.

A influência de Flammarion nesses filmes é imensa, seu livro foi publicado em 1893.

Ele previu a União européia, o voto feminino, os grandes aviões comerciais etc.

Diz que as mulheres ocuparão papel decisivo na política de desmilitarização do mundo e no fim das guerras.

No seu livro aparece algo que seria um computador moderno.

Mas prevê um desastre: a destruição da natureza, a degradação do meio-ambiente, a diminuição da água potável, a degeneração das condições de vida no planeta.

Atualíssimo.