segunda-feira, 30 de março de 2009

e eu bebo veneno pelos olhos


















e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)

o exercício do ofício 5




SECO. Não. Ninguém
ou/e nada
me calará
por sobre o muro das
lamentáveis considerações

domingo, 29 de março de 2009

o exercício do ofício 4
















GERALMENTE. Me tens
ao céu posto
caindo sobre a nave
do teu seio

(foto R. Samuel)

sábado, 28 de março de 2009

A cabana no campo sem paredes


















A cabana no campo sem paredes
No campo verde amplo e profundo
Não escondeu seu corpo nu
Nem encobriu seu gozo
Que o céu azul despedaça:
Busco voar nessas marcas,
Mas o encontrei imerso na paisagem
Não parecia pastor
Nem estando sentado à margem da estrada
Para onde, depois do amor, eterno
Retornou.
No seu sorriso eterno havia um perfume.

o exercício do ofício 3



TERCEIRO. Muito
de mel e com trigo
posto
e dado
e o sorriso, ambiquerido

sexta-feira, 27 de março de 2009

o exercício do ofício 2




SEGUNDO. Neste aqui posto
secundário ou perto
não me abraçarás
jamais

segunda-feira, 23 de março de 2009

Onde andará o poema?

Onde andará o poema?


Rogel Samuel


Estou numa Lan-house, um pouco quente, e vim ao blog para dar conta de uma coisa: minha postagem diária.

Rubem Braga produzia suas melhores crônicas quando não tinha assunto. Ele era o mestre. Um dia entrou pela manhã, bêbado, na nossa faculdade de letras. Entrou na biblioteca, falava alto.

- Vocês têm meus livros? gritou.

Ivete, a diretora da Biblioteca, mandou que os serventes expulsassem aquele bêbado.

- Mas é o Rubem Braga, dissemos.

E fizemos uma roda em torno dele e ele falou de sua vida particular, íntima, desabafou, quase chorou, contou coisas que não se podem publicar.

Quando eu o chamei de Embaixador, ele se irritou. Ele tinha sido Embaixador do Brasil, recente.

No fim apaixonou-se por nossa colega e minha amiga até hoje, Maria Alice Capucci, que é uma loura belíssima.

Escreveu um poema para ela. Onde andará o poema?

domingo, 22 de março de 2009

POEMA DE MARÇO
















POEMA DE MARÇO

Não quero rever o segredo
o teu copo de mar
nem a horta colher a medo
por quem a imitação da forma
é a porta por entrar
a costura da imagem
da pele mais quente amar
que fria ou quente acessórios
são para o tom certo aplainar
ou a tonalidade vazia
que nada sabe o enredo
em que quero aprisionar
e por onde passa o espelho
lançado sobre o luar
oriunda onda onde queres
neste oceano me levar?

sábado, 21 de março de 2009

o exercício do ofício 1




















PRIMEIRO. De folhas
se compara a rosa
incolor da tua nudez
Depressa alcançarei
a missão textura antiga

(Gravura de Lyria Pallombini)

deitaram-se nuas




deitaram-se nuas
no meio da noite
as meninas virgens

deitaram-se nuas
as doces meninas
e ainda eram virgens

e os seus esposos
acenaram logo
com as mãos erguidas

e logo chegaram
no meio da noite
como que perdidos

deitaram-se nuas
todas as meninas
escondendo as graças

e os seus consortes
logo as sucederam
e imprimiram o selo

estavam tão nuas
e eram mais puras
que longínqua estrela

e na amena noite
só fugiu o tempo
envolto num lenço

e depois de amor
daquele conúbio
choveram diamantes

o fecundo hino
daquelas meninas
musas citadinas

naquela noite toda
caem as flores finas
deusas fesceninas

e os seus amigos
inventaram lira
e os seus caprichos

quinta-feira, 19 de março de 2009

Safo e Alceu














Safo e Alceu





Quando eras na Grécia
Em ti, insensato
Era vago o teu coração
E Afrodite imortal
Deusa da ardilosa causa
Te fazia igual aos deuses.
Diante de ti
Todos se sentiam pequenos.

Hoje, operário desempregado
Vedado
É chorar, porque se tu me amas
O teu amor de outra será
De outra será, certamente
E não voltarás

terça-feira, 17 de março de 2009

havia uma igreja no alto













havia uma igreja no alto
de lá se descortinava
o grande mar o asfalto
por onde a estrada passava
ficava o mundo em pedaços
a praça os recomeços
as cartas de teu regresso
ficavam nas pedras passos
a esquiva glória de amar
os pedaços de si mesmo
o meio a linha os traços
o espetáculo no espaço
a glória curta no ar
havia uma igreja no alto
e o plano do grande mar

Viagem


Viagem

Preparo-me para Manaus
em breve naquela sala
Aeronave não, ave
mergulho no passado.
Certas ruas, certas casas
Calçadas
pisadas pelos meus mortos.

Mas o rio Negro passa,
em silêncio ameaçador.
Me ameaça com sua mordaça.

(Rogel Samuel)