sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Rogel Samuel - CARNAVAL



Rogel Samuel - CARNAVAL



Neste carnaval um livro me faz crer na morte. Um livro de latim. Sim, porque é carnaval. A muito antiga recordação chega por sujos corredores. O desfile. Longe.  Seu rebolado, ouço. De seus batuques o bulir. De seus reco-recos a tamborinada batucada. O desfile segue na direção da morte. Da Matriz ou do Congresso? No princípio ou no fim? Nítido já não está seu quadro mágico. No escuro da esquina some. Roda no tempo, mergulho, abissal grito de dor. Corta a espada o sonho antigo. Personagens fantasias saindo pela porta que sempre esteve ali, mas disfarçada. Personagens vestidos de mortos. A uma quadra dali, estala o balaco-baco do quadro carnavalesco. É o onde estive. Onde sempre estarei. Outra face. Olímpico, Rio Negro. Fantasias esgarçadas, esmaecidas. Pulsa sangue novo dos viventes mortos. Transparentes véus se abrem de onde saem. Fadas, prestidigitadores, coreógrafos, mandarins, camélias. Um raio de serpentina luminosa atravessa o ar, desenrolar de puro ouro. Dentro do salão tudo brilha, cristal. O salão espelhado do Clube faz tudo girar. É redondo. Das lança-perfumes o perfume no ar. Camélias de minha vida, reapareçam. No chão súbitas estrelas lancinantes caem e abrem cortinados de papel crepon. Quem nunca pensei rever, Sílvio por exemplo me acena, cantando, rebolando, gestualizando. Sapateado Maloca dos Barés. Todos ali afastam-se nas fantasias de si mesmo. O rei Momo e corte avança na alegoria. Não o reconheço. Ele prospera. Vem do luar um halo de mágica fala que atravessa o vácuo. A festa goteja, no céu se fez um súbito silêncio. Uma brutal surdez cristaliza mundos estelares. Onde, eles? Meu bloco, meu loco? Não ouso pronunciar seus nomes. Para onde foram foliões? O desfile entrando no vale das sombras. Alegria se desconstruindo distante. No afastado. Em vão os chamo. Não me deixem, brinquedos, estragos. Não atravessem este rio. Voltem para os barcos. A vida desfila carnavalesca. Alegres, cantantes, fantasiados, mascarados, palhaços. Mergulham na morte. O vento. 

  
  Quando estive em Manaus comprei as "Noções de latim", de Agenor Ferreira Lima. Toda a edição estava lá, não vendida, na livraria velha da Henriques Martins. O rapaz não me queria vender. "Não tem preço", me disse. Insisti. Avaliei um preço. Comprei. Veio com o "Vocabulário", um panfleto anexo aos dois volumes para as quatro "Séries ginasiais". 1959. Estudei por ali. Agenor era um excelente professor severo. Inspirava medo. Do seu livro extraio esta: "De vulpe et uva", "A raposa e as uvas": 

  Fame coacta, Vulpis alta in vinea 
  Uvam adpetebat, summis saliens viribus; 
  Quam tangere ut  non potuit, discedens ait: 
  "Nondum matura est, nolo acerbam sumere". 
  Qui, facere quae non possunt, verbis elevant, 
  Adscribere hoc debebunt exemplum sibi.

 Que deve ser de Caio Julio Fedro. Não sei. Ele não diz. Podia traduzir livremente assim: 

"Pela fome coagida, a raposa  
agarrava um cacho de uvas  
da altura do pulo de um homem.  
Não as podendo colher, afastou-se dizendo:  
"Não estão maduras, não gosto do sumo ácido."  
Quem, fazendo o que não pode, ergue a voz, 
acrescentando o mesmo que seu exemplo". 

O professor Agenor me reprovaria esta prova escrita de menino de quarta séria do atual primeiro grau do Colégio Brasileiro. Não reclamem minha tradução. É carnaval.  
  
 Melhor é HORÁCIO, que na Ode III assim se refere ao  
"AO NAVIO DE VERGÍLIO" (Trad. Elpino Duriense, Lisboa, 1807):

Ó nau, que és de Vergílio devedora, 
               Que a ti se confiou, rogo-te, o ponhas, 
               Salvo nas terras áticas, e guardes 
               metade de minha alma.

O poema integral está no livro.
  
 Vale a propaganda. Mas neste carnaval pensei na morte. Algumas linhas abaixo já a esqueci. O Prof. Agenor há muito faleceu. Ele, Pedro Silvestre, D. Maria Luiza Saboia, Freitas Pinto, a Vivisinha, o Barrela. Meus Deus, faleceram todos! Como vêem, tudo passa. Mesmo a morte. Que passa. Também. A morte também morre. Mas estes meus professores estão vivos na minha memória ainda vivos.