sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CANTO TRÊS

CANTO TRÊS


Rogel Samuel


Mas ele, voltando-se, viu-a e acenou com braço
ela não respondeu e era como se nada nenhuma
reação. Ele tirando a lente dos olhos voltou-se
para aquele ponto do horizonte. Deu três passos e
fechando a porta desceu a escada, passo a passo
avançando ora formulando orações incompletas
ela desaparece ele olha em torno passo os dedos
ela voltou-se debilmente sobre mim. Onde
estávamos? Não podia dizer com exatidão
se sonhávamos ou se a terna superveniência
estava realmente registrada aquarelas
suavíssimas limitavam do verde ao quase
róseo ao azul e ao dourado profundo
vaporosamente descíamos dentro daquela massa
aquela inconsistente nuvem a estabilidade dela
em tudo não existia nem a essência daquela nuvem
feita de música que trazia aquele silêncio vaporoso
espuma que estruge - mas era no limiar, alta moeda
de ouro daquele lugar nos observava. Havia
uma grande orla na avenida litorânea. "Você
quer voltar?" ela perguntava. "Se você quiser",
respondeu. E a onda cresceu ameaçando-o
veio com sua bamba baba raivosa e curvando-se
sobre ele que se jogou naquela colina de ar
e o baque umbroso e o reboliço da massa estuante
escorria em direção a ele. "Não pensei que estivesse
ali", pensou. Espantou-se / quando a viu sair nua
vedado o serviço e acalanto, servido aos que
coroados de alarde e intensiva batida de címbalos
o ritmo prosseguia cheio de tortezas e vieses
como seguindo a força de seus músculos por baixo
o vapor subiu branco e parótido enquanto vivíamos
o ritmo invertido e cativo submissos com fervuras
Ah, eu estava feliz! E ela apareceu numa de suas melhores
perfórmances dentro do aquário em que estávamos
olhava o ambiente do fundo escuro iluminado apenas
por um ângulo do cenário onde estavam os luminosos olhos
as gigantescas proporções elétricas nos posicionavam
e as curiosas listras vermelhas aquele peixe vinha
quando ele se expunha às luminosidades, de flanco
e através de uma porta horizontal de horizonte
e um alçapão quadrado por que poderíamos sair
e ocupava o centro e larga parte esquerda
por onde possível era penetrar nas regiões obscuras
que remotas se aprofundavam onde certos peixes
existiam e eram vistos num esporádico nadar
e toda aquela beira da abertura que formava
como um peitoril sobre a grade enferrujada
e finos balaústres apodrecidos como touca de pelúcia
Oh que ela se decompunha... Seus pedaços se largavam
flutuantes e deixados para trás quando se movia
a passos lentos e submarinos de fantasmas
mas nesse momento alguma coisa emergera
muito acima de nós muito acima de nós
como tampa arrancada e forçada a sucção
da tensão superficial: houve festa de molhados guinchos
como uma grande seta um grande peixe vinha sobre nós
de muito longe de muito longe ele vinha e largava suas
bolhas de cristal de ar e soltava um som de engasgamento
um óleo e uma cor: ela se desarticulava, em vão
eu tentava rearmá-la unindo as partes e não deixando
que se perdessem detalhes importantes. Afinava delgada
e eu não lhe podia valer:
"O correspondente da France Press escreveu que um novo ataque foi efetuado ontem contra a capital pela aviação inimiga desde as 11:40 até às 12:05 locais.
"As pontes PD, nas margens do rio V, e o setor de GL foram os principais objetivos, porém outros ataques de despistamento foram realizados simultaneamente contra vários pontos da região.
"O ataque foi realizado por três ondas de bombardeios, com uma diferença de cinco minutos entre si. Os ataques efetuaram-se a meia altura.
"A primeira e a segunda onda chegaram sobre a cidade por grupos de dois aviões cada uma. Os aviões voram protegidos pelo sol, que mantinham atrás de si, para que as reverberações molestassem os atiradores em terra.
"Os aparelhos largaram projéteis verticalmente sobre o centro da cidade e era possível ver as bombas picarem em diagonal sobre os objetivos. Depois os aparelhos viravam sobre uma de suas asas a fim de oferecer a menor superfície possível aos disparos dos canhões antiaéreos.
"Além das bombas e dos foguetes ar-terra, bombas de balas foram disparadas pela terceira onda de aviões. Essas bombas se reconhecem por sua explosão, que se parece com fogo de artifício. Ao explodirem elas lançam milhares de cubos de metal em todas as direções - são por isso conhecidas como bombas antipessoais.
"DEFESA.
"A defesa antiaérea foi muito intensa. O alarma começou na capital vários minutos antes da chegada os aviões, e cada onda de caça-bombardeios era "anunciada" pelos alto-falantes.
"A jovem anônima, sempre a mesma, que anuncia os alarmes pelo microfone dizia que "novos piratas do ar penetravam no espaço aéreo da cidade".
"Ouvia-se então o surdo rugir dos reatores ao longe, e depois os primeiros disparos dos canhões pesados instalados nos arredores da cidade, e imediatamente depois o crepitar de todas as armas, quando os aviões surgiam sobre a cidade.
"De vez em quando a terra estremecia quando explodia uma bomba de grande calibre.
"Às 12:05 locais o último fragor dos reatores sumiu ao longe, e em seguida as sirenas anunciaram o fim do alarme.
"Nas ruas as pessoas abandonaram seus refúgios individuais, limpando a roupa, reajustando seus capacetes na cabeça e montavam de novo em suas bicicletas."
Correio da manhã, 19.12.1967.

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