quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

transforma-se o amador em terrorista















transforma-se o amador em terrorista
e sua inês fálica na pista
em seus braços onde levará?
interdita por preservativos
sua beatriz de amor armada
quando ama mata o amado
punhal pelúcia escondida
eles se encontram na vida
com amor com ódio com cida
maquilagem fementida
salto alto escorregadia via
no vão da escada se masturbam vivos
gameta estrela circunstância pia
nos cines pornôs e hotéis baratos
eles se ajoelham escondidos.
suas crianças desde que perdidas
tão perigosas assaltantes nuas
à noite transadas pelas ruas
por milicianos que a querem vivas
contaminadas nas suas mágicas rotas
de polícias especializadas
no desejo na espera e nessa dor
erotizadas dos primeiros gozos
postais sextantes dessa corja aziaga
de escória e de glórias clandestinas
guirlandas estupradas nesses montes de lixo
de restos de hospitais a flor da morte
(dia virá em que os amantes
serão caçados a bala)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CANTO TRÊS

CANTO TRÊS


Rogel Samuel


Mas ele, voltando-se, viu-a e acenou com braço
ela não respondeu e era como se nada nenhuma
reação. Ele tirando a lente dos olhos voltou-se
para aquele ponto do horizonte. Deu três passos e
fechando a porta desceu a escada, passo a passo
avançando ora formulando orações incompletas
ela desaparece ele olha em torno passo os dedos
ela voltou-se debilmente sobre mim. Onde
estávamos? Não podia dizer com exatidão
se sonhávamos ou se a terna superveniência
estava realmente registrada aquarelas
suavíssimas limitavam do verde ao quase
róseo ao azul e ao dourado profundo
vaporosamente descíamos dentro daquela massa
aquela inconsistente nuvem a estabilidade dela
em tudo não existia nem a essência daquela nuvem
feita de música que trazia aquele silêncio vaporoso
espuma que estruge - mas era no limiar, alta moeda
de ouro daquele lugar nos observava. Havia
uma grande orla na avenida litorânea. "Você
quer voltar?" ela perguntava. "Se você quiser",
respondeu. E a onda cresceu ameaçando-o
veio com sua bamba baba raivosa e curvando-se
sobre ele que se jogou naquela colina de ar
e o baque umbroso e o reboliço da massa estuante
escorria em direção a ele. "Não pensei que estivesse
ali", pensou. Espantou-se / quando a viu sair nua
vedado o serviço e acalanto, servido aos que
coroados de alarde e intensiva batida de címbalos
o ritmo prosseguia cheio de tortezas e vieses
como seguindo a força de seus músculos por baixo
o vapor subiu branco e parótido enquanto vivíamos
o ritmo invertido e cativo submissos com fervuras
Ah, eu estava feliz! E ela apareceu numa de suas melhores
perfórmances dentro do aquário em que estávamos
olhava o ambiente do fundo escuro iluminado apenas
por um ângulo do cenário onde estavam os luminosos olhos
as gigantescas proporções elétricas nos posicionavam
e as curiosas listras vermelhas aquele peixe vinha
quando ele se expunha às luminosidades, de flanco
e através de uma porta horizontal de horizonte
e um alçapão quadrado por que poderíamos sair
e ocupava o centro e larga parte esquerda
por onde possível era penetrar nas regiões obscuras
que remotas se aprofundavam onde certos peixes
existiam e eram vistos num esporádico nadar
e toda aquela beira da abertura que formava
como um peitoril sobre a grade enferrujada
e finos balaústres apodrecidos como touca de pelúcia
Oh que ela se decompunha... Seus pedaços se largavam
flutuantes e deixados para trás quando se movia
a passos lentos e submarinos de fantasmas
mas nesse momento alguma coisa emergera
muito acima de nós muito acima de nós
como tampa arrancada e forçada a sucção
da tensão superficial: houve festa de molhados guinchos
como uma grande seta um grande peixe vinha sobre nós
de muito longe de muito longe ele vinha e largava suas
bolhas de cristal de ar e soltava um som de engasgamento
um óleo e uma cor: ela se desarticulava, em vão
eu tentava rearmá-la unindo as partes e não deixando
que se perdessem detalhes importantes. Afinava delgada
e eu não lhe podia valer:
"O correspondente da France Press escreveu que um novo ataque foi efetuado ontem contra a capital pela aviação inimiga desde as 11:40 até às 12:05 locais.
"As pontes PD, nas margens do rio V, e o setor de GL foram os principais objetivos, porém outros ataques de despistamento foram realizados simultaneamente contra vários pontos da região.
"O ataque foi realizado por três ondas de bombardeios, com uma diferença de cinco minutos entre si. Os ataques efetuaram-se a meia altura.
"A primeira e a segunda onda chegaram sobre a cidade por grupos de dois aviões cada uma. Os aviões voram protegidos pelo sol, que mantinham atrás de si, para que as reverberações molestassem os atiradores em terra.
"Os aparelhos largaram projéteis verticalmente sobre o centro da cidade e era possível ver as bombas picarem em diagonal sobre os objetivos. Depois os aparelhos viravam sobre uma de suas asas a fim de oferecer a menor superfície possível aos disparos dos canhões antiaéreos.
"Além das bombas e dos foguetes ar-terra, bombas de balas foram disparadas pela terceira onda de aviões. Essas bombas se reconhecem por sua explosão, que se parece com fogo de artifício. Ao explodirem elas lançam milhares de cubos de metal em todas as direções - são por isso conhecidas como bombas antipessoais.
"DEFESA.
"A defesa antiaérea foi muito intensa. O alarma começou na capital vários minutos antes da chegada os aviões, e cada onda de caça-bombardeios era "anunciada" pelos alto-falantes.
"A jovem anônima, sempre a mesma, que anuncia os alarmes pelo microfone dizia que "novos piratas do ar penetravam no espaço aéreo da cidade".
"Ouvia-se então o surdo rugir dos reatores ao longe, e depois os primeiros disparos dos canhões pesados instalados nos arredores da cidade, e imediatamente depois o crepitar de todas as armas, quando os aviões surgiam sobre a cidade.
"De vez em quando a terra estremecia quando explodia uma bomba de grande calibre.
"Às 12:05 locais o último fragor dos reatores sumiu ao longe, e em seguida as sirenas anunciaram o fim do alarme.
"Nas ruas as pessoas abandonaram seus refúgios individuais, limpando a roupa, reajustando seus capacetes na cabeça e montavam de novo em suas bicicletas."
Correio da manhã, 19.12.1967.

Canto um


Canto um



Rogel Samuel



Decorrido o tempo a imagem dela
entre as pessoas da rua começa a linear-se
ou desaparecia ou próxima e inteira
como um coice se via a variada
aspergida dispersa sua figura
de tordo e metal desconhecido
enfurecia o comando deste povo
que habita diretamente todos nós
acelerava a parte e sobre a sarça obscura
certo da sua atitude disciplinar
amanhecia ainda e um mapa de cores
à disposição. Oh sinto-me levado
pela demonstração a coisa o folhear
porque mostrar é o meu único refúgio
e o meu desenlace transacto imposto tenso
nunca passava de róseo amarelo azul
nenhuma cor. As pernas estendidas sobre o
fundo, espero e fico como que mais surdo
às expectáveis palavras dos velozes
quem podia me reanimar: era sozinho
e ela faiscações rebrilhos Potestade
conseguia tocar os dedos transferidos
para outros compromissos plataforma
mais alta mais velada alada e aérea
fala fatalidade irmã da morte
quem se aformoseie e se transfere em quê
argila topográfica caminhada
caminhemos convictos, caminhemos
e sedimentares que ali não eram certos
de pálida derrota senão estava
dizer de cláusulas alfandegárias trapaceadas
oh irmãos da morte vigiai
as inúteis bandeiras abas leques
queimam gasolina controlada
computada pelos contornos senhoriais
arrendai-me oh grande queima verde
recém saída de altos fornos cerimoniosos
que pegando o tecido e examinando a cor
discutem entre si sacudindo os olhos
penduricalhos pingentes quedados
superiorizados pagos trepados: à tintura
o consolida moço de consciência
proletário pulsar dos pulsos que seguravam
nos sustentando famintos e opressores mitos
umas leves camadas de barro que se espoliavam
aos duros golpes do inimigo devotos
gaivotas gotas de Infinito acaso a morte
parda e morna e paliçada ardia
mas estando refrigeradas e atadas
eram pingentes constelações turbinas tubulares
que se aprofundavam em congelamentos e orgias
Era a guerra. Endereçadas populações marginais
nutrizes de servidiços trabalhos
a imitação - que é minha - sempre aberta
olhos elétricos candelabros enodoados
se apagavam em cores para a visão final
cadeirinhas carreiras tremulina dons
a placa de metal sobre o alto assoalho
sobretudo os altíssimos raios sacramentais
e contínuas marés de compridas nuvens
alvuras para que passemos sobre as suas
cabeças sensuais de não afago
mais que a trama o permitir e então
no frígido planeta estereotipado
sentido pintado o fim do mais querido
sonho, adeus, foi só um momento aquele
o tapume os jogadores o pólo verde
ainda entrevejo, débil coração
conexa a minha memória esgarçada
já vigiava o céu, velho e severo
céu que era pleno de estrelas assassinas
em baixo da minha pouca paliçada
o rol de meus amigos mortos aprisionados
camuflados traidores feitores dores
fugiam todos por um curso usual
1963, lembro era de tarde
- traspassada dividida, lentamente
andávamos através daquela rua
o lugar grave passos tardos convulsão
resumida o contato nossas mãos
- toque de dedos, rápido e desperto
eu não conseguia narrar, ó musa descoberta
evanescente irrecuperável ocorrendo
por onde passava inteiramente aberta
a presença frente a tela de cinema
e implantado aquilo não me era triste
pois tudo começou no dia lembro bem
quando acordei o teto do meu quarto
desmaiado vinha de amanhecer um outro
sol do outro lado do mundo, aberta a janela
labirinto abastardado claro suavíssimo
marítimo emanava aquele ponto horrível
horizonte que entrando um azulado
vento do mar oleava lembro-me das linhas
retas cruzes ruas úmida cidade indiferente
da quase madrugada que chegava a forte
perfeita aterradora ambígua assassina
as persianas que batendo viam
que desesperavam para a morte
a minha confiança e a minha lembrança
o aroma de café entrante o espaço lerdo
subia até ali. o esquecido, eu pensei:
devo amá-la. e olhei pela janela
na espera de encontrá-la: mas um grupo
policiais à paisana e eu... súbita felicidade
vinha da calma da praça em que estávamos
na borda daquela raça ela subiu pedestal
vazio frio cabeceira tanque retangular para o ar
sumiam seus braços seus brados espalmados
para o céu como voasse ameaçava
dizia que o vento intenso era sensual
recolhia para si própria aquele medo
e levava ao majestoso ao largo olhar
mar que soando forte aos nossos gritos
órgão a sua voz de meus cristais
a salsugem penetrava e da camisa
nua sobre seus cabelos ressoava
e entrando como por um túnel me atava
nadava me entristecia ainda mais
da sua essa passageira aparição demora
o momento montante o interior imensurável
os rápidos retardos que é para sempre
adormeciam e sinto espécie nova
um som um estilhaço longo momentos
de certeza inteiramente perdição
depois na praia ela se deitava
e se largava na areia matutina
e era suave aquela branca nua
visto de longe no mar era certeza
espécie de vedação alta azul e informe
as coisas se dissolviam em explosões
cristas e covas cintilações sonoras
luminosidades que a ela me contavam
naquele dia ela no convés da chuva
quase todo o tempo o ruído nascia
da ondulação das dobras das estrelas
esbeltas circulares e misteriosas
Nós dois. Nós dois ríamos muito
de face recebendo gélida chuva
gotas algumas da tarde e haviam dito
- ouvíamos som de gaivotas mares
que ela andava como um adorno multicor
ela se precipitava entre as coisas vivas
que depois os soldados invadiram
bombas rebentavam no meio da sala
não havia rádio nenhuma comunicação
eu ainda não passava de matar a esperança
amada e ela morta certamente
a porta da frente onde estávamos
talvez aberta talvez fechada rebentou
eu passava a mão sobre sua cintura
e mordia-a na nuca ternamente
a porta começava a chave introduzida
na fechadura como ainda me lembro a outra porta
bem defronte os azulejos brancos a pia branca
a geladeira branca e lá fora chovia e a clara voz
nos dizia que era o fim de tudo
e que ouviríamos certamente o nosso algoz
como para poder fugir para o fundo de nós mesmos
tomamos de súbito os sinais
e entravam e se apoderavam os policiais
de toda a casa que um dia tinha sido minha
jogamos o nosso conteúdo fora
e fomos engolidos pelo meu silêncio
fugimos dali. Aquele golpe vitorioso
nos deslocava para a clandestinidade
fomos nos ver numa estação suburbana
olhávamos a planície e estávamos sós
quase uma centena de esperados iam
no bojo do mesmo trem. Mesmo ali naquele isolamento
desmilitarizados passavam policiais e viaturas
e nós éramos distraídos vendedores
Val era linda. Palavras cheias de angústia
fome medo perdição: Que fazemos aqui? Para onde ir?
Novo grupo de policiais chegava
nas imediações campos de guerra
e a porta cedia a pancadas a invasão
começou. O garoto olhava espantado. E começava
a lavrar um incêndio.

Canto dois


Canto dois

Rogel Samuel

Sucede que assentou num banco de pedra
com todo pedantismo que de sempre
lhe era familiar. Naquela praça distante
ficava a esperar e a pensar
- mas o que estava esperando senão morte
neste ponto nem via que por ali
poderiam encontrá-lo. As lanternas
que partiam iluminavam-no violentamente
de vermelho. E ele espera calado
com suaves sentimentos depressivos
havia andado tanto depois de ter fugido
que atrás dele no largo da praça estariam
mas ele nada mais queria fazer. As crianças
corriam gritos pela noite. Morna e plácida
provinciana geografia, geometria mortal
irmã do sonho. Dois velhos caminhavam pelas
sombras da noite, cada um com seu embrulho.
Ele estava bem, ali. E até poderia
dormir sob os faróis dos carros que cruzavam
o que sentia. Em breve, porém, ficou sentindo
um gosto mole de aço e de azedume
como se o vento que vinha sobre ele reto
pudesse lhe cavar um fosso dentro
Às vezes algumas lembranças familiares
o levavam num passeio da imaginação
e era como se sua mãe, tia e sobrinha
dissessem ser agradável viver ali
e de pensar naquelas pessoas ternas
não havia os tais carros e seus sistemas.
O pregador e seu dilema. Um viver que o sustenta,
circunda, pega, o põe indiferente.
Ele nada mais via naquele fundo
tudo que estava, tudo que faltava estava ali.
A noite que o circunda nas vidraças
altas prolongava aquela letargia e acomodação.
Era tempo. Pois no dia em que almoçaram juntos
havia muito sol. Depois do almoço
andaram até a margem, a praia onde estavam
sempre. Havia um vento, uma frescura quase fria,
e o gosto na boca era de pomar
Todas as reverberações no tanque
além do gradil de ferro ofuscava por momentos
O mundo enquadrado estava claramente
limpo, sadio, em sossego. Ele tomava
de algo no bolso e começava por alguns instantes
a brincar. E o metálico do papel
que o envolvia riscava o céu de diamantes
Mas o sabor era excelente, a dissolução
lenta, excitante. Salivava. Estava alegre
de estar sentindo. Havia pássaros descendo.
Os edifícios agora na manhã
espelhos de fantásticas vitrines. A camisa
aberta com suas asas desarticuladas
exibindo o ventre arqueado. Ele tinha naquele
instante a silhueta mais de pássaro do que
do pobre rato e, descendo a vista poder-
se-ia ver a sua forte carnação. E desde o pescoço
sólido até as pernas, tesas, tensas, quase tortas
o seu corpo se contorcia e se deslocava
numa dança que andava. Tudo viu. Andou
sem jeito até bem perto do vidro. E um grupo
de turistas passava. Alegres e por detrás
no fundo da imagem. Alegres, falavam, não
o viam, nenhum deles. Sua presença era dureza
e aridez. E tendo visto saiu assombrado
da marquise, da rua com seus gritos com
seus giros e para lá se dirigiu, seus passos
sobre a calçava levavam, vagava
Um bar fechava as portas. A noite
era dos afastados lampiões que se apagavam
e uma leitosa névoa cinza anunciava
a madrugada. Seus sapatos molhados
seus olhos molhados. Na mecânica
da tristeza de andar, sem atinar, sem saber para quê.
Procurava e ter para onde vir não, não mais
chorava estava diante da nobre descoberta
passara sombra futuro deixava
inquietar pelo menos durante aquele
tempo mas como se mudava alternava era
possível que em breve nova orda deprimente
o tomaria como uma agitação nervosa
angustiante ele fugia e na realidade
procurava andava atrás da fuga era
possível que soubesse e dele era o que
não tinha bem certeza o perseguiam
hoje mesmo o pensava a fuga era uma
engrenagem necessária e exercera
como o que tentava alcançar e não sabia
e o alcançava rodeando aquela parte daquela
cidade perigosa das pessoas cujas portas
franqueavam sem que pudesse regressar
sensação de que tudo estava excluído para
quando entrou experimentou logo
a solidão daquele espaço vazio
atravessando a área descobriu no outro
o lado o disfarce a saída que apontava
e uma estrada que partia sempre
e ninguém passava por aquela estrada só
os inúteis os demônios inúteis o fundo descortinava
o vale as grandes montanhas além
morcegos de vento passavam por ali idos
musguentos com estrídulos chiados estilhaços
quebravam o ar com seus gritos suas
negrinhas asas cobrindo o sol a lua estrelas.
e ouvir o trinar grave e reto
de certas aves ocultas travo rouco baixo e grave
monstro e seu arquejar forte seu resfolegar
abrindo um túnel de torpor e medo as abas da morte
se abrindo par em par e rolando aquela parte
se postou para frente oh estrada! quando vinha
soturno a triste impressão que navegava
a luz da morte seus faróis aquela parte
obscura e perdida onde ocorria tudo
chamado vento sangue não

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

poemas de friday harbour



poemas de friday harbour

rogel samuel


Na Ilha de Friday Harbour
caem poemas do céu
estrofes de Longfellow
nas folhasinhas da horta
que um deer um dia comeu
oh sabedorias aladas
nas placas nacas do mel
das árvores engravidadas
típicas moradas
da Ilha de Friday Harbour
onde por quase nada
saem poemas do chão


MAS NA ILHA DE FRIDAY HARBOUR
O DIA É MUITO MAIS LONGO
HÁ SÓIS POR TODOS OS LADOS
UNS NASCENDO, OUTROS SE PONDO
DE TAL MODO QUE O QUADRO
FICA EM FORMA DE XADREZ
(ALI TODOS TÊM VEZ)
SÃO VOZES BEM CONJUGADAS
HOKAI SUSAN TRINLEY
TODOS DE IGUAL MEDIDA
NA CONSTRUÇÃO DA MANHÃ
MEUS IRMÃOS E IRMÃS
CADA QUAL TEM O SEU SOL
ALÔ ALÔ MADRUGADA
NADA DE LUZ APAGADA
NA ILHA DE FRIDAY HARBOUR



MESMO AS ORCAS DAS ILHAS
QUE SAEM SEM TER NENHUM PEJO
GORDAS E ASSANHADAS
VÃO POR ALI COM SEU BEIJO
PODEM ESTAR GLORIOSAS
TECNICOLORES MODA
DEMOCRÁTICAS AMERICANAS
ALI BALEIA BACANA
E TEMO QUE UM DIA PASSE
SEM QUE VEJA O MEU AMOR
DIZEM QUE MUDOU DE SEXO
OU ATÉ MESMO DE COR



bem está quem nessa ilha
sabe seu bem cortejar
por aqui passou o rei
e por aqui passará
a sua sagrada filha


tudo aqui nesta ilha
na ilha de Friday harbour
parece coisa de fada
as bandeirolas ao vento
a imaginária enseada
nada é feito a lamento
mas para contemplação
o soluço do silêncio
primeiro me faz sonhar
depois me moe de bocejos
tudo aqui nesta ilha
tem a mole maravilha
desta bela primavera
do senhor juan de fuca
dos anos de mil e tal
ao velho capitão vancouver
dos anos de setecentos



só na ilha de friday harbour
tive esta inspiração
onde por quase nada
poemas crescem do chão
onde as orcas das ilhas
saem passeando em pelo
e a lua movida a pilha
desenrosca seu novelo




estou muito contente
com a lucidez dos faróis
que a noite põe no seu teto
quando estende seus lençóis
bem está quem nesta ilha
mora com seu amor
por aqui passou o rei
e logo mais passará
a sua lendária filha





não tem idéia onde pisa
nem onde me põe a paixão
há figurativas milhas
sob o tume do calção
bem está quem nessa ilha
nunca olha para o lado
pois não vê, misericórdia
quão rápido passa o amado






na ilha de san juan
verdadeiro nome da ilha
uma baía é chamada falsa
quem a vê não sob as águas
onde esconde a falsidade
nem se a baía atende
pelo nome de renome
que a faz tão respeitada
quão se sabe que ela mente
em vez de abrigo, desastre
traz para quem dela se sente

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CHAMP DE MARS













CHAMP DE MARS

E somente porque fazia sol naquela tarde
eu não queria mais voltar pro meu país,
e somente porque fazia sol naquele canto
oh, naquela mesma imensa canção
com que, há vários anos, venho para o mesmo Campo
de Marte, em frente à Torre de Vidro
que à noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes,
e estava, nas minhas costas
a Escola Militar onde Napoleão estudou
e na minha frente o “mur de la paix”,
inspirado no muro das lamentações,
soprando naquele panteon de assinaturas
em várias línguas dizendo a paz.

Longe a imensa Torre.

Meu pai a viu,
meu avô a viu.
A imensa Torre
aponta o céu.
(À noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Há um júbilo de estar
de ainda estar ali
depois de tantos anos
depois de tantos dias escuros e frios.
Num dia de sol.

O frio se recolheu dentro de mim.

Sofro por estar em comunhão
e porque gostaria de ficar
(não só)
porque gostaria de que Paris fosse
o subúrbio de Manaus,
que já foi no tempo do meu avô Maurice,
(no teto do Teatro Amazonas
se vê a Torre Eiffel, vista de baixo).

Sofro porque gostaria de ficar,
entre amigos
com o Cláudio Rosa, a Leila Míccolis, a Neuza Machado.

Mas em seis dias me vou,
ficará o mesmo jeito de ser
daquela ponta de praça
a mesma imensa área,
com aquele intuito amplo de conter o mundo
de a tudo reunir.
Na minha contemplação
a vida estranha
(À noite a Torre brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Vida estranha.
Mundo estranho.

Faz sol.

(Paris, 9 de novembro de 2006).

domingo, 19 de julho de 2009

O motociclista















Ele irrompe míssil e libera-se tanático
Cavaleiro do ferro negro?
De ameaçadora criança sentença?
Produto da anti-revolução objetividade?
Herói ou vítima veloz? Força?
Ou forma de menino marketing digital ruído?
Que fizeram de ti, ou sem ti?
Te perderam ou te estamparam?
De que insegura agressividade és a vitória?
De que burrice histórica és a glória?
Opressor: um trilhão de dólares mortíferos
disparam no ar sobre milhões de homens doentes e mortos
-- eis teu sonho ao videogame?
Sais das trevas de algum segredo
do incomunicado, ou morrerás
sozinho na bala da noite?
Por que, como policial, queres à força ver
um crime em cada vida?
uma troca em cada relação?
Que ávidos saques de prisão
têm teus inocentes dedos de revólveres
e de alavancas secretas?
Que sentes? Ah! A quem amas?

terça-feira, 14 de julho de 2009

terra de belos poemas




ó terra de belos poemas
te vejo nos finos trilhos
o amor passou por aqui
amados esquecidos na gare
a aliança dessas terras
que faremos nós?
do fundo de tuas filhas
nas orientais de olhos sagazes
eu quero teu belo bolero
a tua cinta e camisa
ó bicicletas acrobáticas
o teu relógio
marca na floresta negra
teu passo e tua rede
não passará
Frankfurt, 1998

segunda-feira, 13 de julho de 2009

eu não tenho um grande amor
















eu não tenho um grande amor
mas há quem o tenha
( por isso me alegro)

a jovem olhava perto o amigo
que sorria, embevecido
e a tarde morria

as alegres garotas entravam no parque
a cantar na praça vermelha
algumas cândidas e jovens
os velhos casais cansados
na calçada do Pacificador
ainda guardavam as relíquias
as alegrias finas
eu não tenho um grande amor
mas há quem os tenha
e por isso me alegro
e em júbilo canto
21/12/98

sábado, 11 de julho de 2009

Quem foi que descobriu o Brasil?




















Quem foi que descobriu o Brasil?
Foi seu Cabral!
O Carnaval!
Foi o furor
De Portugal
O amor do ouro
do ancestral
e foi o bruto
Canavial
E a riqueza
Do cafezal
A agudeza
Do canibal
A terra-à-vista
Cartão-postal
Foi o arranhar
no litoral
Quem foi? Quem mesmo foi
Que descobriu
Esse Brasil
Oficial?
Foi seu Cabral
Foi seu Cabral
Logo depois
Do carnaval!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Não posso reter os teus traços









Foto R. Samuel








Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se esquece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando te vir já será garço
O repique da tua cena
e o afastado abraço...
(oriunda onda a que cerca de aço
me levarão tuas algemas?)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

somos sombras















nada sabe a nada
neste e no outro mundo

nada é
o que pensa que é

somos sombras
névoa que se dissipa na curva da estrada
ao sol da manhã

certa vez eu vi um monte enevoado
era uma alta montanha
longe, bem longe dos olhos
nunca me esqueci
era a cordilheira dos Himalaias
ao longe, bem longe
como uma visão excelente
de algo portentoso e belo

somos sombras
o mundo presente
e o mundo dos sonhos

domingo, 17 de maio de 2009

e eu bebo veneno pelos olhos
















e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)

domingo, 3 de maio de 2009

CALIFORNIANO















CALIFORNIANO


No ponto Sul o vôo vem no mel
Boeing com seu som martelo ponto certo
Quem me espera? porque vem
o mais tarde amor
corta no ar do meu voto
caio nas suas cores
saio das suas plumas
chego.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

poema de 22/10/1999





(Foto de R. Samuel: Opera house, em Sydney, Australia)




há entre a taça e a xícara
vaga da tua para-
da. calada toalha
vidro ladrilho
litro e do bule quente
nu sobre o sombrio limbo
perfume aéreo de café
discurso vozes horizonte cartas pernas abertas
mas objetos plenos
em gozo integrados
um nó
um único nó
da não separação da não
divisão do pão
núcleo liso imóvel novo
interseção de pontos
o vir vivido
não condicionado
não nascido

(22/10/1999)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

LYRA









a lua em peixe
diz pra multidão
me deixe

quinta-feira, 9 de abril de 2009

TERRA




TERRA



(Desenho de R. Samuel)



terra de meus mais belos poemas
vão-se as cenas amarelas
também passou o amor com seu fardo
oh amados, da aliança esquecidos
no centro daquelas feras terras
vêm com seu automático gatilho
oh jovens orientais de olhos sagazes
oh bebedores de cerveja e seda
eu quero ter teu belo bolero thai
sob tua pele de chrystal e neve
o teu trunfo de veludo as tuas músicas
andando e esquecido de pelúcia
nas veias velhas da terra se irradiam
e há no teu colo as folhas macias
para onde eu quero voltar

terça-feira, 7 de abril de 2009

que me aparto de vós, oh óleos
















que me aparto de vós, oh óleos
do Rio Negro. Das axilas
de coca-cola, de mel. Produto impuro
banho de esperma que ferve
pelas paquidérmicas chatas.
vos deixo, oh mãe de orquídeas terra
régia fera guerra estéril e amorosa
e no longo corredor me enrosco
meu aeroplano tece
sobre vossas plastificadas canoas de ferro
goma arábica ungüento espesso
caboclo jovem mãe planície
negra magra seda
de vós finalmente me aparto
oh águas lixiviadas, menstruais
lembranças de ventres de tarântulas
de cristais
de vós me aparto para sempre!
esmorecido de vós, sucumbido
por vossa fênix, por vosso lenho
vos esqueço, oh pélvica morada
de mortos deuses, de profundos silos
e neste ar meu aeroplano tece
e é expelido pelas tuas pernas.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

um poema azul



um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo

por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
que azul aceita

por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?

esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?

leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.

meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.

mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.

cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz poema
e a tua pena
vai-te envenenar.



(maio de 2.000)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

que quando entrei do patamar no espaço















que quando entrei do patamar no espaço
no comando gritavam pulsações de alarme
e o repuxo das terras punham plácidas tábuas
esboroado o farol a ímpeto último.
e coloridas voavam no patamar da estupa
bandeiras de rezas estandartes de graças
e era quando ali recebíamos forças
do aro de metal tão plano quanto aço.
mas do mormaço apareciam taças
bye-rung kha-shor amorosa puro néctar túmido
no fomento do som de trompas que sobre o azul colore
levadas a pulso poderosas e em bando.
ó grande tarde de Padmasambhava
ó grande área aquela de palácio!
rufam tambores encastelados deuses
refregas rumores talássicas ameaças
de Mahakhalas de khatvangas de espadas!

quem me dera estar de volta em poema
e lá não me perder no azul do céu da cena

quarta-feira, 1 de abril de 2009

foi numa noite de agosto














foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal

segunda-feira, 30 de março de 2009

e eu bebo veneno pelos olhos


















e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.

(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)

o exercício do ofício 5




SECO. Não. Ninguém
ou/e nada
me calará
por sobre o muro das
lamentáveis considerações

domingo, 29 de março de 2009

o exercício do ofício 4
















GERALMENTE. Me tens
ao céu posto
caindo sobre a nave
do teu seio

(foto R. Samuel)

sábado, 28 de março de 2009

A cabana no campo sem paredes


















A cabana no campo sem paredes
No campo verde amplo e profundo
Não escondeu seu corpo nu
Nem encobriu seu gozo
Que o céu azul despedaça:
Busco voar nessas marcas,
Mas o encontrei imerso na paisagem
Não parecia pastor
Nem estando sentado à margem da estrada
Para onde, depois do amor, eterno
Retornou.
No seu sorriso eterno havia um perfume.

o exercício do ofício 3



TERCEIRO. Muito
de mel e com trigo
posto
e dado
e o sorriso, ambiquerido

sexta-feira, 27 de março de 2009

o exercício do ofício 2




SEGUNDO. Neste aqui posto
secundário ou perto
não me abraçarás
jamais

segunda-feira, 23 de março de 2009

Onde andará o poema?

Onde andará o poema?


Rogel Samuel


Estou numa Lan-house, um pouco quente, e vim ao blog para dar conta de uma coisa: minha postagem diária.

Rubem Braga produzia suas melhores crônicas quando não tinha assunto. Ele era o mestre. Um dia entrou pela manhã, bêbado, na nossa faculdade de letras. Entrou na biblioteca, falava alto.

- Vocês têm meus livros? gritou.

Ivete, a diretora da Biblioteca, mandou que os serventes expulsassem aquele bêbado.

- Mas é o Rubem Braga, dissemos.

E fizemos uma roda em torno dele e ele falou de sua vida particular, íntima, desabafou, quase chorou, contou coisas que não se podem publicar.

Quando eu o chamei de Embaixador, ele se irritou. Ele tinha sido Embaixador do Brasil, recente.

No fim apaixonou-se por nossa colega e minha amiga até hoje, Maria Alice Capucci, que é uma loura belíssima.

Escreveu um poema para ela. Onde andará o poema?

domingo, 22 de março de 2009

POEMA DE MARÇO
















POEMA DE MARÇO

Não quero rever o segredo
o teu copo de mar
nem a horta colher a medo
por quem a imitação da forma
é a porta por entrar
a costura da imagem
da pele mais quente amar
que fria ou quente acessórios
são para o tom certo aplainar
ou a tonalidade vazia
que nada sabe o enredo
em que quero aprisionar
e por onde passa o espelho
lançado sobre o luar
oriunda onda onde queres
neste oceano me levar?

sábado, 21 de março de 2009

o exercício do ofício 1




















PRIMEIRO. De folhas
se compara a rosa
incolor da tua nudez
Depressa alcançarei
a missão textura antiga

(Gravura de Lyria Pallombini)

deitaram-se nuas




deitaram-se nuas
no meio da noite
as meninas virgens

deitaram-se nuas
as doces meninas
e ainda eram virgens

e os seus esposos
acenaram logo
com as mãos erguidas

e logo chegaram
no meio da noite
como que perdidos

deitaram-se nuas
todas as meninas
escondendo as graças

e os seus consortes
logo as sucederam
e imprimiram o selo

estavam tão nuas
e eram mais puras
que longínqua estrela

e na amena noite
só fugiu o tempo
envolto num lenço

e depois de amor
daquele conúbio
choveram diamantes

o fecundo hino
daquelas meninas
musas citadinas

naquela noite toda
caem as flores finas
deusas fesceninas

e os seus amigos
inventaram lira
e os seus caprichos

quinta-feira, 19 de março de 2009

Safo e Alceu














Safo e Alceu





Quando eras na Grécia
Em ti, insensato
Era vago o teu coração
E Afrodite imortal
Deusa da ardilosa causa
Te fazia igual aos deuses.
Diante de ti
Todos se sentiam pequenos.

Hoje, operário desempregado
Vedado
É chorar, porque se tu me amas
O teu amor de outra será
De outra será, certamente
E não voltarás

terça-feira, 17 de março de 2009

havia uma igreja no alto













havia uma igreja no alto
de lá se descortinava
o grande mar o asfalto
por onde a estrada passava
ficava o mundo em pedaços
a praça os recomeços
as cartas de teu regresso
ficavam nas pedras passos
a esquiva glória de amar
os pedaços de si mesmo
o meio a linha os traços
o espetáculo no espaço
a glória curta no ar
havia uma igreja no alto
e o plano do grande mar

Viagem


Viagem

Preparo-me para Manaus
em breve naquela sala
Aeronave não, ave
mergulho no passado.
Certas ruas, certas casas
Calçadas
pisadas pelos meus mortos.

Mas o rio Negro passa,
em silêncio ameaçador.
Me ameaça com sua mordaça.

(Rogel Samuel)